Rasgam-se os céus na calmaria, enquanto madrugo os passos que não darei amanhã. Rasgam-se com a imponência do universo condensada num só som, para acordar as almas há muito adormecidas. O som que me esventrou, áspero e estridente, acordou-me sem clemência e explodiu grave dentro de mim, com a potência de um choque frontal com a realidade.
Agora, já acordado, desperto e ciente, busco um som que irrompa por este silêncio dentro, que me desperte do marasmo de que o céu me mostrou que sou feito.

Estremeço inteiro
sempre que lá dou
um passo,
Naquele trilho de
loucura, onde
me desgraço

E vou avançando
sem mim,
sorrateiro e distraído
Peço que chegue o fim,
comigo ainda adormecido

E quando lá acordo,
com o chicotear
de mim mesmo
nas minhas costas
ensaguentadas
Grito,
para que mas lavem
e perdoem
por ser assim

FMelo

O aspeto de um gato vadio ao fundo da rua tornou-se insuportável. Sabe lá ele que tem aspeto, que está na rua, que é um gato. Mas eu sei isso tudo. Só não sei de mim, porque os candeeiros desta rua só alumiam coisas vivas.

FMelo

Irá fluir em mim
Um mar de realidade
Um rasgo de maturidade
Um trago de sobriedade
Irá nascer aqui,
na póstuma morada
de minha loucura,
um cato
como confirmação
da sua existência

Irei com a boca
colher os espinhos,
Saldar a dívida
da minha estabilidade
Engolirei inteiras
tamanhas farpas
e nem o gume
da faca que traçarei
de mim a mim
me causará dor

FMelo

Pesa-me o eco
do batimento cardíaco
nas paredes do meu crânio
Exalta-se e os meus
olhos quase saltam
das suas pequenas
cavernas, onde se diz
não haver vida,
por lá não terem
encontrado água.
Exalta-se e deixo
de o sentir apenas,
Ouço-o também!
É tudo o que ouço
agora,
O peso de existir,
maquinalmente repetido
ao expoente do enjoo

FMelo

Culmina em mim

O desprezível peso de ser

E a avareza de o sentir assim

Alimenta-o

como grandes achas

para as labaredas enormes

do fogo posto

no meu escalpe

FMelo


O ar pesava por si só. Não se via nele nada senão tristeza. Ali, naquela espécie de aldeia, os âmagos vestiam uma capa dura que os protegia do inevitável peso da morte. E, se no início da mescla de celebração da vida com o culto da morte, o sol se fazia sentir com a sua máxima intensidade, no fim a chuva apossou-se dos nossos olhos e rasgaram-se as capas, dos âmagos e dos céus. Os trovões absurdos que se faziam sentir eram a perfeita banda sonora para um momento tão cru. Fez-se em nós silêncio!! Por respeito e estagnação emocional. E, com o rasgar do mais forte dos trovões, fez-se ouvir a voz sozinha:
- Meu filho! O meu filho!! Que Deus me ajude! Que me leve! O que é que eu vou fazer?! É um até já, eu sei que é! O meu único filho! É a última vez que te vejo! Oh meu filho! É o meu último beijo! O meu filho!

FMelo

Eles dão-se a  prazeres
Comuns e reles
Engolem-se inteiros
De perto
E não pensam o engolir
Não o saboreiam
Porque estão preocupados
em não morrer
entalados

E como nunca atentaram
no sabor,
Nunca vão distinguir
o veneno do amor.

Vão estender-se
sobre si mesmos
suar a lenta digestão
da fruta podre
Cansar os olhos, as mãos
e o resto

E quando findar
a dolorosa reabilitação,
depois de apontarem os dedos
a quem jejuou para sempre
e não teve fome,
voltam à ração
porque é disso
que a alma pobre come

FMelo

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